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II Circuito Internacional do Porto
 I Grande Prémio de Portugal
15, 16 e 17 de Junho


O Ferrari 340 America (#0082A) de Casimiro de Oliveira
(Foto: Colecção Manuel Taboada)


Na sua carreira desportiva, iniciada em meados dos anos trinta, Casimiro de Oliveira teve a oportunidade de pilotar diversos automóveis, no entanto foi ao volante dos Ferrari que conseguiu sobressair como um piloto corajoso, determinado e impetuoso, conseguindo as mais belas vitórias, mas também, o que era habitual nesses anos, sofrendo alguns acidentes mais ou menos graves. O primeiro Ferrari que o piloto nascido no Porto usou foi o 340 America Vignale (#0082A) em 1951.

O I Grande Prémio de Portugal foi disputado a 17 de Junho de 1951 no Circuito da Boavista, e contou com a presença de pilotos nacionais e estrangeiros que eram o garante de um bom espéctaculo. Casimiro de Oliveira, José Nogueira Pinto, Corte Real Pereira, Fernando Mascarenhas e Guilherme Searamiug foram alguns dos pilotos portugueses presentes. Os pilotos italianos constituiam o mais forte contingente, em quantidade e qualidade, para esta prova. Eugenio Castelotti, Vittorio Marzotto, Giovanni Bracco, Emilio Romano, Piero Carini, Franco Cornacchia e Felice Bonetto, formavam um forte squadra que pilotava sobretudo automóveis Ferrari (excepto Bonetto que utilizou um Alfa Romeo 412 Vignale), e que até teve direito à presença do Rei Umberto de Itália, que desde a 2ª Guerra Mundial se encontrava exilado no nosso país.


Os Ferrari presentes

Nº6 - Guilherme Searamiug - 166MM Touring Barchetta #0056M
Nº14 - Casimiro de Oliveira - 340 America Vignale Berlinetta #0082A
Nº15 - Giovanni Bracco - 340 America BarchettaTouring #0030MT
Nº16 - Vittorio Marzotto - 212 Export Spyder Vignale #0086E
Nº18 - Emilio Romano - 166 Inter Spyder Corsa #0012M/008I
Nº19 - Piero Carini - 166MM Barchetta Touring #0004M
Nº29 - Franco Cornacchia - 212 Export Berlinetta Vignale #0070M
Nº30 - Eugenio Castelotti - 166MM Touring Barchetta Lusso #0058M


Apesar da qualidade dos inscritos, Casimiro de Oliveira conseguiu o melhor tempo dos treinos, na frente do Talbot de Pierre Meyrat (3’41,04’’)  e do Ferrari 166 SC de Emilio Romano,  
Entre os pilotos portugueses, e para além de Casimiro, Guilherme Searamiug (Guilherme Guimarães), no Ferrari 166MM (#0056MM), conseguiu ser o 2º melhor representante dos pilotos nacionais.


Resultados dos treinos


1º - Casimiro de Oliveira - 3'.38.73''
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3º - Emilio Romano - 3'.42.28''
4º - Vittorio Marzotto - 3'.42.28''
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6º - Piero Carini - 3'.45.77''
7º - Franco Cornacchia - 3'.45.82''
8º - Eugenio Castelotti - 3'.45.74''
9º - Giovanni Bracco -
10º - Guilherme Searamiug - 3'.48'.42


O 166 Inter Spyder Corsa  #0012M/008I de Emilio Romano, inscrito pela Scuderia Guastalla de Franco Cornacchia.
(Foto: Arquivo ACP)

Já na grelha de partida, Franco Cornacchia junto ao 212 Export. Ao lado pode ver-se, com o nº19, o 166MM de Piero Carini.
(Foto: Arquivo ACP)

Guilherme Searamiug (Guilherme Guimarães) junto ao seu Ferrari 166 MM #0056M, o primeiro dos modelos de Maranello a entrar em Portugal (10 de Junho de 1950).
(Foto: Arq. ACP)

Foto da partida. Do lado esquerdo podemos ver o Ferrari 212 Export Berlinetta Vignale (#0070M) de Franco Cornacchia (6º lugar final). Este Ferrari tinha uma carroçaria em tudo idêntica à do 340 America de Casimiro de Oliveira (à direita na foto). Nesta foto pode ver-se ainda com o nº 18 o Ferrari 166SC (#0012M/008I) de Emilio Romano (4º lugar final), o mesmo Ferrari que cerca de um mês depois desta corrida seria utilizado pelo Conde de Monte Real no Circuito de Vila Real. 
(Foto: Colecção Manuel Taboada)



Na largada para a corrida, Giovanni Bracco conseguiu o comando da corrida seguido por Casimiro de Oliveira. À 11ª volta, a diferença entre os dois pilotos era de 46 segundos. Refira-se que embora equipados com o mesmo motor de 4,1 litros, o 340 America Berlinetta Vignale de Casimiro era ligeiramente mais pesado que os 900 Kg do modelo Barchetta Touring de Bracco. No entanto, Bracco corria com menos gasolina no seu 340, o que lhe permitia um andamento mais rápido, embora tivesse que reabastecer mais frequentemente. Casimiro com um andamento ligeiramente mais lento, mas mais regular, conseguiu ultrapassar Bracco, e construir uma vantagem de cerca de 11 segundos. Nesta fase o duelo passou a ser à vista, e o piloto italiano forçou o andamento, batendo por diversas vezes o recorde do circuito, ao que Casimiro respondia com voltas ainda mais rápidas.
Ao jornal O Volante, Casimiro dizia que na zona mais rápida do circuito atingia 235 Km/h no velocímetro do seu Ferrari (recorde-se que a velocidade máxima deste modelo, segundo as indicações de fábrica, era de 240Km/h). Bracco conseguiu bater novamente o tempo da volta mais rápida (3’32,80’’), tempo que não foi mais melhorado até ao final, no entanto, e para grande desespero do piloto, um problema com a embraiagem do 340 America, obrigou-o a abandonar. A partir desta altura, Casimiro geriu a grande vantagem que tinha sobre o 2º classificado, Vittorio Marzotto (uma volta de avanço), e terminou as 45 voltas da corrida em ambiente de festa, sendo efusivamente saudado pelo muito público presente no Circuito da Boavista.
As palavras, no final da prova, de Casimiro de Oliveira sobre o Ferrari: “ É a máquina mais forte que conduzi até hoje. Como sabe, trata-se do carro de Sport mais potente que existe. Ora numa viatura dessa enorme potência é sempre difícil a utilização da sua força total, o que requer uma técnica e um estudo que não podem ser menosprezados. (…) Sinto-me, na verdade, satisfeito pela prova que fiz, tanto mais que tive por adversários homens muito experimentados, como os italianos Bonetto, Bracco, Marzotto, etc; os excelentes corredores franceses, de entre os quais destaco Pierre Meyrat; e outros ainda, alguns deles, porém, equipados com máquinas menos capazes. Mesmo assim, não deixam, todos eles, de merecer que os considere como bons pilotos.”
Curioso, no final, o comentário do Conde de Monte Real à vitória de Casimiro e ao seu novo Ferrari 340 America: “Casimiro fez uma prova brilhante. Uma grande prova! Mas, quanto a mim, acabaram-se as provas de velocidade em Portugal. Com um carro como este Ferrari ninguém mais pode pensar em vitórias…”
Uma palavra para Vasco Sameiro, o piloto de Braga esteve ausente deste início de temporada automobilística, já que se encontrava nessa altura no Brasil, a competir ao volante de um Maserati 4CL cedido pelo Automóvel Clube do Brasil e cujas despesas eram suportadas por alguns membros da comunidade Portuguesa radicada no Brasil. 
A falta de resultados relevantes com o Maserati, normalmente devido a problemas mecânicos, fizeram com que, num gesto raro, o piloto brasileiro António Pinheiro Pires tenha proposto a cedência do seu Ferrari 125 F1 #0108 (renumerado do #8C) a Vasco Sameiro, para com ele alinhar no VI Grande Prémio da Quinta da Boa Vista (24 de Junho de 1951). No entanto, e agradecendo a generosa oferta, Sameiro optou por insistir na utilização do Maserati, pois segundo o piloto, estava mais adaptado às características do circuito. No final, nova desistência de Sameiro, e a impossibilidade de o ver estrear ao volante de um Ferrari monolugar.


Eugenio Castellotti no Ferrari 166MM (#0058M) de cor preta.  O piloto italiano iniciava nesta altura a sua carreira desportiva, usando o 1º Ferrari que adquiriu para utilização desportiva.
(Fotos: Arquivo ACP)

Vittorio Marzotto no Ferrari 212 Export (#0086E). Logo atrás de Marzotto surge Piero Carini com o Ferrari 166MM (#0004M).
(Foto: Coleção Manuel Taboada)

Outra foto do 212 Export de Marzotto, este automóvel seria usado (um mês depois) por Bracco no Circuito de Vila Real, onde venceria.


Franco Cornacchia, na descida da Circunvalação, após ter ultrapassado o Allard J2 de Fernando Mascarenhas. O piloto de Lisboa terminou a corrida num longínquo 14º lugar da geral, a cinco voltas do Ferrari 340 America de Casimiro de Oliveira, e começava a entender que para tentar vencer corridas teria que adquirir um automóvel de Maranello.
(Foto: arquivo ACP)

A luta entre dois Ferrari de 4100cc de cilindrada, o 340 America Vignale Berlinetta e o 340 America Touring Spider. Ganhou o Vignale. Giovanni Bracco, o virtuoso piloto italiano, utilizou no Porto um Ferrari 340 America Touring Spider (#0030MT); um Ferrari que iniciou a sua carreira como 275S, utilizando o 1º motor feito por Lampredi na Ferrari, para, ainda em 1950, ser recarroçado por Touring, tendo-lhe sido colocado um motor de 4,1 litros (#340/01). Este foi o modelo exposto nos Salões de Paris de 1950, e representou o protótipo da série 340 America.
(Foto:Coleção Manuel Taboada)

Numa prática comum naquela época, o 340 America de Casimiro de Oliveira ostentava o número de chassis na placa da matrícula.

Logo após a corrida os primeiros a saudar Casimiro foram o seu irmão Manoel, José Júlio Marinho (que era co-proprietário do Ferrari), o seu irmão Alfredo Marinho Júnior (também ele antigo piloto e Juiz de Chegada desta prova) e Jorge Novais. Foi Alfredo Marinho Júnior que colocou a coroa de louros em Casimiro, que estava visivelmente emocionado. Foi com a coroa de louros que subiu para o carro da Organização para dar a volta de honra, que demorou mais de 20 minutos a concluir, tendo até uma invasão de pista na zona da Estrada da Circunvalação.


Classificação final

1º - Casimiro de Oliveira - Ferrari 340 America
       45 Voltas - 2h 46' 47,60'' - Média 125,859Km/h
       V.M.R - 3'.33,59'' - Média 131,045Km/h


2º - Vittorio Marzotto - Ferrari 212 Export
       45 Voltas - 2h 49' 10,16'' - Média 124,092Km/h
       
       V.M.R - 3'.35,23'' - Média 130,047Km/h

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4º - Emilio Romano - Ferrari 166 SC
      44 Voltas - 2h 47' 17,80'' - Média 122,692Km/h
      

      V.M.R - 3'.41,53'' - Média 126,349Km/h

5º - Piero Carini - Ferrari 166MM #0004M
       44 Voltas - 2h 49' 56,82'' - Média 120,779Km/h
       V.M.R - 3'.42,57'' - Média 125,758Km/h

6º - Franco Cornachia - Ferrari 212 Export
       44 Voltas - 2h 50' 23,74'' - Média 120,461Km/h
       V.M.R - 3'.41,54'' - Média 126,343Km/h

7º - Eugenio Castelotti- Ferrari 166MM
       43 Voltas - 2h 48' 21,84'' - Média 119,144Km/h
      

       V.M.R - 3'.45,42'' - Média 124,168Km/h
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Não terminaram: 

Giovanni Bracco - 340 America BarchettaTouring #0030MT
37 Voltas 
V.M.R - 3'.32,80'' - Média 131,370Km/h

Guilherme Searamiug - Ferrari 166MM



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No stand de João Gaspar no Porto, Casimiro de Oliveira e o Ferrari 340 America #0082A posam orgulhosos. Tinham toda a razão para isso, já que este foi um momento único do automobilismo desportivo em Portugal.

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A Entrevista de Casimiro de Oliveira ao jornal "O Volante" de 5 de Julho de 1951


Esta entrevista foi feita após a fantástica vitória de Casimiro de Oliveira e do Ferrari 340 America #0082A no I Grande Prémio do Portugal em 1951 disputado no Circuito da Boavista e antes do X Circuito Internacional de Vila Real.


Jornal "O Volante" - 5 de Julho de 1951 - Pág.15/16



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X Circuito Internacional de Vila Real
14 e 15 de Julho

           Giovanni Bracco com o 212 Export Spider Vignale #0086E 
 (foto: António Cândido Taboada)

Para esta edição do Circuito Internacional de Vila Real estiveram inscritos seis automóveis da marca italiana, correspondendo a quatro modelos diferentes: 166 SC, 166 MM, 340 América e 212 Export.


Os Ferrari presentes

Nº2 - Casimiro de Oliveira - 340 America Vignale Berlinetta #0082A
Nº14 - Giovanni Bracco - 212 Export Spyder Vignale #0086E 
Nº16 - Piero Carini - 166MM Barchetta Touring #0004M
Nº18 - Conde de Monte Real - 166 Inter Spyder Corsa #0012M/008I
Nº19 - Guilherme Searamiug - 166MM Touring Barchetta #0056M
Nº12 - Giannino Marzotto - Embora inscrito com um 212 Export, não chegou a participar


O Ferrari 340 America que participou em Vila Real era o 0082A, que na altura já contava no seu palmarés com uma vitória nas Mil Milhas do mesmo ano através de Luigi Villoresi/Piero Cassani, tendo na altura a matrícula BO 2685 (prova) e o nº 405. O Circuito do Porto havia sido disputado um mês antes do de Vila Real, algo que a reportagem do jornal O Comércio do Porto referia desta forma: "(...) não há qualquer incompatibilidade na existência dos circuitos do Porto e de Vila Real, ambos com características bem diferentes. Aqueles que a proclamam não são, necessariamente, admiradores do mais belo e emocionante dos desportos."

Casimiro de Oliveira no Ferrari 340 América, a efectuar a curva de S. Pedro. 
(foto: António Cândido Taboada)


O Ferrari 212 Export Vignale Barchetta estava inscrito para Giovanni Bracco e Giannino Marzotto, embora este último não tenha comparecido em Vila Real.
Como curiosidade de referir que foi ao volante de um Ferrari deste modelo (#0078E) que a, na altura, esperança californiana Phil Hill conseguiu a primeira vitória ao volante de um carro de Maranello, foi em Torrey Pines em 1952.
Este 212 Export existia nas variantes aberta e fechada, e estava equipado com o 12 cilindros Colombo de 2.562 c.c. e 150 cv.
O 212 Export que Giovanni Bracco utilizou em Vila Real tinha sido aquele que Vittorio Marzotto levou ao 2º lugar da geral na Boavista.
Bracco tinha conseguido uma actuação brilhante nas Mil Milhas ao volante de um Lancia Aurelia B20 da categoria GT, conseguindo bater-se durante toda a prova com os mais potentes Ferrari, conseguindo o 2º lugar final, embora ajudado pelas condições climatéricas difíceis. Já falamos no artigo anterior algumas das características principais deste piloto, no entanto sempre se pode dizer que a carreira do piloto se iniciou de maneira atribulada, com um acidente na Coppa D’oro del Littorio em 1934, e que lhe custaram para além da perda do pulmão esquerdo, um ultimatum paterno de enquanto este fosse vivo, Giovanni Bracco não deveria correr. Asssim, quando o Pai morreu em 1938, Bracco retomou a sua grande paixão. Este piloto deixou em todos os que, em Vila Real, o conheceram uma recordação de piloto audaz e pessoa de trato afável. Uma história curiosa deste ano foi quando para treinar o traçado do circuito, Manoel de Oliveira telefonou para Luiz Taboada, na altura concessionário Ford em Vila Real, para que lhes arranjasse um carro e fechassem o circuito para que pudessem treiná-lo, e quer Manoel de Oliveira quer quem teve a sorte de acompanhar Bracco nalgumas voltas ficaram impressionados com a técnica e perícia usadas pelo bravo italiano, que um dia recebeu de Enzo Ferrari um relógio no valor de alguns milhares de Liras, pelo reconhecimento das vitórias conseguidas ao volante dos carros de Maranello, e que costumava dizer a propósito: Um relógio de milhares de Liras, quando eu penso que para correr com os seus carros eu lhe dei 600 milhões, mas pouco importa....


Piero Carini com o 166MM (#0004M/49) em plena prova, numa zona onde alguns anos mais tarde seriam construídas as boxes do Circuito.
(foto: António Cândido Taboada)

 
Dois 166MM Barchetta Touring, que já descrevemos no artigo anterior sobre o tema, estavam inscritos para Guilherme Guimarães, que se inscrevia por vezes sob o pseudónimo de "G. Searamiug", era o chassis 0056M de cor azul metálico e com a matrícula PN-12-81.
O segundo 166 MM estava inscrito para Piero Carini, o #0004M. Carini tinha vencido em Vila Real no ano anterior com um Osca-Maserati. Estes 166 MM eram da 1ª série, com o habitual motor de 1995 c.c. e 140 cv. De referir que surgiu em 1953 uma segunda série deste modelo caracterizado por alguns desenvolvimentos ao nível mecânico, mas mantendo a mesma cilindrada.
O Ferrari 166 Spider Corsa que participou em Vila Real era o mesmo que Emilio Romano havia utilizado na Boavista desse mesmo ano. Pertencia à Scuderia Guastalla de Franco Cornacchia, um dinâmico representante da Ferrari em Milão. 

O Conde de Monte Real pilotou o veterano 166 Spider Corsa (#0012M/008I).
(foto: António Cândido Taboada)

De todos, seria o mais antiquado dos Ferrari presentes, o 166 SC de Monte Real, aquele que conseguiu o melhor tempo nos treinos, sendo de realçar o facto de ser a 1ªa vez que o piloto conduz este carro. Carini consegiu um lugar na 1º fila. Casimiro partiu da 2ª fila seguido por Bracco no 7º posto e “G. Searamiug” no 8º lugar da grelha de partida.


Resultados dos treinos

1º - Conde de Monte Real - 4' 3,18''
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3º - Piero Carini - 4' 4,83''
4º - Casimiro de Oliveira
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7º - Giovanni Bracco
8º - "G.Searamiug"


 
Na 1ª linha da grelha de partida pode ver-se Conde de Monte Real (Ferrari 166 SC), Nogueira Pinto (Allard J2) e Piero Carini (Ferrari 166MM).
(foto: colecção Manuel Taboada)


O Allard de Nogueira Pinto seria o mais lesto na largada, no entanto seria ultrapassado por Casimiro de Oliveira ainda antes de cumprida a 1ª volta, na ponte de Ferro, cujas obras de manutenção desta haviam terminado, Bracco atrasava-se na largada devido a ter deixado ir abaixo o motor do seu carro, mas viria a ganhar terreno de forma rápida, mantendo uma interessante luta com Casimiro e Monte Real. «Searamiug» e Carini haviam desitido entretanto.
Com Casimiro no 1º lugar da geral, Monte Real em 2º e Bracco em 3º, desenvolvia-se uma interessante luta pela vitória. A partir da 19ª das 40 voltas previstas para a corrida, Bracco impõe ao seu 212 Export um ritmo elevado que o leva a bater o record do Circuito (3.51.75s à média de 111 Km/h) e a ultrapassar os seus adversários, uma manobra mais facilitada na pista transmontana pois a pista foi alargada em algumas zonas para treze metros, e a, sem grandes sobressaltos, estabelecer uma diferença insolente de cerca de 1 minuto para Monte Real, que de qualquer forma efectuou aqui uma prova verdadeiramente competitiva. Conta quem teve a possibilidade de ver a prova, que Bracco conduziu de forma assombrosa, sobretudo na zona mais sinuosa e de empedrado junto à Igreja de S. Pedro.
Os dotes de Bracco e os “cavalos” do seu 212 Export fizeram a diferença e possibilitaram a 1ª vitória de um Ferrari na Pista transmontana.
No final da prova, Bracco seria cumprimentado pelo Rei Humberto de Itália, que se tinha deslocado desde o Estoril onde residia, até Vila Real para apoiar os pilotos
Este ano de 1951 e 52 seriam os anos de ouro da participação de automóveis Ferrari no circuito transmontano, estes anos em que como refere Stanley Nowak : Os Ferrari produzidos eram em baixo número, e por isso cada um deles é único, não existiam dois carros exactamente iguais, a fábrica promovia mudanças e desenvolvimentos carro por carro. E isto foi verdadeiro e verificou-se até pelo menos 1954.

Giovanni Bracco conseguiu durante a prova uma brilhante recuperação desde os últimos lugares. Esta foto mostra o momento em que ultrapassa o DIMA de Francisco Corte-Real. 
(foto: colecção Manuel Taboada)


Guilherme Guimarães ou «G. Searamiug» ao volante do 166 MM.
(foto: António Cândido Taboada)

Casimiro na frente de Monte Real na zona da Timpeira.
(foto: colecção Manuel Taboada)


Giovanni Bracco festeja a sua vitória
(foto: colecção Manuel Taboada)


O Rei Humberto de Itália junto dos pilotos italianos presentes em Vila Real.
(foto: colecção Manuel Taboada)


Classificação final

1º - Giovanni Bracco - Ferrari 212 Export
       40 Voltas - 2h 41' 05,98'' - Média 107,263 Km/h


2º - Conde de Monte Real - Ferrari 166 SC
      40 Voltas - 2h 42' 30,39'' - Média 106,334 Km/h
      


3º - Casimiro de Oliveira - Ferrari 340 America
       40 Voltas - 2h 42' 54,97'' - Média 106,067 Km/h
       
     
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Não terminaram:

Piero Carini - Ferrari 166MM #0004M  
"G.Searamiug" - Ferrari 166MM
     
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Os Ferrari vistos da Curva do "Boque"
Uma tarde de corridas no Circuito Internacional de Vila Real de 1951


Todos os grandes circuitos de automóveis naturais tinham, e em alguns casos continuam a ter, pelo menos aqueles que mantiveram partes do traçado inalteradas, certas zonas do percurso com nomes que ficaram célebres, normalmente zonas cuja designação provinha de uma particularidade que lhe dava o nome, "Maison Blanche", "Eau Rouge", ou que ficavam perto de povoações, "Arnage", "Mateus" ou "Stavelot".
No Circuito de Vila Real, e desde início da sua organização, a Curva do "Boque" era uma das suas zonas mais populares. Captava a atenção popular, por um lado devido ao ambiente e espaço aprazível, por outro pela grande visibilidade que permitia a quem se deslocava até lá para assistir às corridas de automóveis e motos, isto para além de ser considerada, unanimemente, uma das mais perigosas curvas de todo o traçado. Esta zona era composta por uma curva à direita (de ângulo mais aberto) a que se seguia uma à esquerda (de ângulo mais fechado), esta verdadeiramente considerada como a curva do "Boque", situadas numa das partes mais altas do traçado, entre a Timpeira e Abambres, junto ao cruzamento para Murça. A sua designação surgiu porque existia um caminho pedestre que atravessava um bosque e que permitia uma ligação mais rápida para a estação de caminho de ferro alguns metros acima, em Abambres-Gare. De Bosque surgiu o "boque", e assim ficou designada esta parte do traçado.

O público chegava a esta zona do circuito de automóvel, a pé ou de bicicleta, caso viesse da cidade ou de zonas limítrofes, ou de comboio, usando a estação de Abambres-Gare, caso viesse de populações situadas ao longo da linha ferroviária do Corgo. Neste caso, utilizavam a estação de Abambres-Gare, bem como o acesso mais fácil permitido pelo atalho do "Boque", o que fazia deste local um dos mais movimentados e frequentados. O facto de os espectadores poderem apreciar as façanhas dos pilotos a partir do alto do muro que delimitava esta curva, fazia com que a visibilidade, e ao mesmo tempo a segurança, fossem as melhores.
Nestes anos cinquenta, o Circuito Internacional de Vila Real tinha atingido um grau de popularidade assinalável, quer a nível regional quer a nível nacional, à qual não era indiferente as excelentes listas de inscritos e os automóveis de sonho que nela alinhavam. De entre estes, os Ferrari eram os ganhadores e os mais populares da época. Pese embora tenha sido sempre, ao longo dos tempos, um circuito preterido a nível nacional por pistas geograficamente mais próximas do poder central, mas mais afastadas da paixão popular, Vila Real impunha-se, pois o catalizador para a sua criação foi a paixão natural dos seus criadores pelas corridas motorizadas e pelo empreendedorismo, e não pelo negócio puro e simples.


Nesta planta do traçado em 1951, pode ver-se assinalado a vermelho a zona do "Boque" que compreendia uma curva à direita mais aberta, seguida por outra à esquerda de ângulo mais fechado, esta sim designada por "Boque", que era, das duas, a mais difícil e empenhativa para os pilotos.
(Colecção Manuel Taboada)


Desde cedo, o público começava a chegar e os homens iniciavam a montagem das tendas. Os bancos traseiros de um Ford Anglia eram desmontados para serem utilizados como confortáveis assentos....
Mais do que assistir numas "impessoais" bancadas, este tipo de vivência das corridas era mais convivial e participativa.
(Foto: António Cândido Taboada)


Entretanto, as mulheres iam fazendo pose para o fotógrafo junto do Ford Anglia...agora já privado dos seus assentos traseiros.
(Foto: António Cândido Taboada)

O primeiro concorrente aproxima-se da zona do "Boque", trata-se do 340 America #0082A verde de Casimiro de Oliveira. Esta zona do traçado permitia uma grande visibilidade, conseguindo-se ver a descida para a Timpeira, a travessia da ponte sobre o Rio Corgo e a subida da Timpeira. Casimiro costumava referir na altura, que esta zona do Circuito era uma das mais calorosas, dada a grande quantidade de público presente e a sua proximidade. Refira-se, igualmente, que foi neste local, e devido à excelente visibilidade, que João Hitzemann, à época representante dos materiais fotográficos AGFA, fez o primeiro registo fílmico do Circuito de Vila Real quando, em 1931, registou em película de 16mm as 1ªs imagens animadas do evento.

Na segunda curva, à esquerda, era agora tempo dos espectadores apreciarem o 166SC #0012M/008I  de Jorge de Monte Real, ele que foi o piloto que utilizou em Portugal o Ferrari de competição de concepção mais antiga. Talvez ficassem impressionados com este modelo que apresentava os guarda-lamas integrados na carroçaria (ao contrário dos anteriores 166SC), o que o transformava num "Sport" de "corpo inteiro"...
Ao fundo, à direita, situava-se (e continua a situar) o cruzamento para Murça, que dá acesso também à povoação de Abambres-Gare, cerca de um quilómetro deste local. Pelo vocabulário actual, no que toca a provas automobilísticas de estrada, esta seria considerada uma "Zona Espectáculo", onde o público tinha uma excelente perspectiva da prova e em relativa segurança.


Devido também à integração da organização do Circuito com as Festas da Cidade, existiu sempre muito público que não estava em Vila Real só pelas corridas mas fazendo parte de um cartaz mais alargado, onde as corridas eram, de qualquer forma, o ponto mais alto, um conceito transversal que faz falta hoje em algumas competições motorizadas portuguesas.
Num circuito natural era difícil controlar as entradas de público, mas por entre a assistência, e para controlar quem pagava ou não bilhete, circulavam alguns fiscais, devidamente identificados com uma braçadeira da organização, que apelavam à consciência cívica de cada um.

À hora de almoço, era tempo de retemperar forças. A merenda vinda de casa, ia sendo degustada e as conversas postas em dia. Para quem não vinha preparado de casa para merendar não era difícil encontrar alimento naquela zona (e noutras) do traçado, isto porque os lavradores da zona disponibilizavam refrigerantes e cerveja para venderem nos dias de corrida ou o vinho de fabrico próprio, como o que era vendido nas "Tascas"  em copos aferidos, bem como alguns alimentos caseiros.
(Foto: António Cândido Taboada)


Giovanni Bracco e o Ferrari 212 Export #0086E empenhados em "negociar" a curva na melhor das formas.
O piloto italiano referiu, na altura, ser esta uma das curvas mais temidas do traçado, isto porque surgia após uma sequência de curvas mais abertas, surgindo esta com um final fechado que a tornava difícil de fazer. Na quinta volta desta corrida, Bracco saiu um pouco largo nesta curva, mas conseguiu evitar o muro...
António Stagnoli, em 1952, com o 225S #0176ED, não teve a mesma sorte, e sofreu um despiste exactamente nesta zona, saindo em frente, saltando o muro que se vê na foto e só se imobilizando junto aos pinheiros. Alguns espectadores lembram-se perfeitamente de ver o piloto italiano pelo ar...
Conta-se que Stagnoli, que permaneceu alguns dias no Hospital da Misericórdia de Vila Real, ao querer fazer-se entender às enfermeiras de que queria uma canja de galinha, começou a imitar uma .....
Uma das grandes vantagens, e julgo mesmo que na época era uma das características que fazia populares as corridas de automóveis, era a grande proximidade entre o público e os automóveis, que permitia que os espectadores pudessem apreciar todos os pormenores dos automóveis e os gestos dos pilotos.
Aqui, o 212 Export #0086E de Giovanni Bracco, que também soube aproveitar as vantagens da proximidade, pois costumava parar o seu Ferrari no "Coelho", um restaurante a algumas centenas de metros da curva do "Boque", para retemperar forças...


Ao invés dos nossos dias, nesta época, os pilotos movimentavam-se bastante dentro do automóvel, tomando uma atitude muito similar aos pilotos de motos. Aqui Piero Carini no 166MM #0004M. 


Depois de alguns automóveis terem passado, as senhoras dedicaram-se a apanhar flores e plantas numa zona propícia a esse tipo de actividade.
Desde o seu inicio até 1936, altura em que o traçado foi alcatroado, à excepção da zona da meta, o pó era um dos inimigos principais do público, um pouco ao jeito dos ralis. No entanto, já nessa época eram alugados alguns carros de bois que munidos de uns barris de água molhavam a pista, não em todas as zonas, mas sobretudo naquelas mais perto da cidade, o que normalmente significava que esta zona do "Boque" era mais incómoda para as pessoas que nela assistiam à passagem dos automóveis.
(Foto: António Cândido Taboada)


Esta foto revela bem a proximidade que os espectadores tinham para com os automóveis nesta curva, e como se pode ver, uma saída em frente era motivo suficiente para um contacto com as árvores que ladeavam esta zona do traçado.

À saída da curva alguns sacos de areia decoravam o traçado, como habitualmente nesta época. Constituíam mais um adereço do que uma efectiva protecção....

Logo a seguir à zona do "Boque" os concorrentes encaminhavam-se para a povoação de Abambres.
Na foto pode ver-se outra zona de aglomeração de público, com os devidos apoios "logísticos"...


Terminada a corrida, é tempo de regresso ...
Como curiosidade, refira-se que o local onde estavam montadas as bancadas de madeira (na foto à direita por cima do muro de pedra) era a Quinta "Vila Paulista" pertencente a Francisco Lameirão, cidadão de Vila Real e pai de Francisco Lameirão, que estaria presente vinte anos mais tarde como piloto...



Vieram de todos os cantos do país, até de países estrangeiros para assistir às corridas de Vila Real. E para final de festa, todos posam para a tradicional foto de grupo. Uma tradição que se repetia, e todos desejavam que se repetisse, ano após ano.
(Foto: António Cândido Taboada)


A zona do "Boque" vai-se esvaziando de público. Na altura na sua décima edição, o Circuito de Vila Real afirmava-se como o grande cartaz da cidade, que permitia uma comunhão de interesses entre a população, os organizadores e o poder local.


Texto de Manuel Taboada com António Cândido Taboada.
Fotos: António Cândido Taboada
Agradecemos a Armando Laudemiro a cedência das fotografias da sua colecção particular. 


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II Circuito de Vila do Conde
22 e 23 de Setembro

“O Ferrari correspondeu plenamente. Foi mais que um automóvel, foi um verdadeiro relógio de precisão. Como viu, não tive necessidade de parar uma única vez”. Palavras de Casimiro de Oliveira após a corrida, que venceu com três voltas de avanço para o Allard de Fernando Mascarenhas.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

No regresso do Circuito de Vila do Conde, os automóveis Ferrari marcaram presença, não em quantidade, mas em número suficiente para lutarem pela vitória.

Os Ferrari presentes

Nº15 - Casimiro de Oliveira - 166 MM #0040M (Equipado com um motor 195, de 2,3 litros)
Nº / - José da Cunha d'Almeida Araújo - 212 Export Vignale Cabriolet #0110E


Casimiro de Oliveira utilizou nesta corrida o Ferrari 166MM #0040M, que tinha sido propriedade de Vasco Sameiro em 1950, e que com ele alinhou em duas competições desportivas (Circuito de Vila Real e Rampa de Santa Luzia), onde, apesar de conseguir na pista transmontana o melhor tempo dos treinos, não conseguiu nessas duas provas qualquer vitória à geral. Este 166MM pertencia nesta altura, ao industrial de Riba d'Ave, Miguel Ferreira, que o cedeu para esta utilização em competição a Casimiro de Oliveira. De notar que entre a Rampa de Santa Luzia (18 de Agosto de 1950) e esta corrida em Vila do Conde, o #0040M viu ser substituído o motor original de 2 litros (Tipo 166) por um de 2,3 litros, do Tipo 195, sendo que esta alteração foi feita na Ferrari em Maranello.
Embora estivesse inscrito, e participasse nos treinos (dia 22), o 212 Export Vignale Cabriolet #0110E pilotado por José  d'Almeida Araújo, não chegou a fazer a corrida. 
Com uma concorrência composta pelos Allard de Fernando Mascarenhas e José Nogueira Pinto, para além dos pequenos automóveis de Sport adaptados em Portugal, com os DIMA e FAP, Casimiro de Oliveira não teve dificuldade em dominar os treinos, alcançando o melhor tempo para a grelha de partida.
A corrida teve 80 voltas ao traçado de 2905 metros (232 Km no total) e na partida, os Allard J2 imposeram o seu motor de 4375 cc ao 2 litros do 166MM, mas logo na 3ª volta, Casimiro de Oliveira surgia já tranquilo no 1º lugar, deixando os Allard a discutir a segunda posição na corrida.
Casimiro conseguia a vitória na sua primeira participação com o 166MM #0040M, onde para além da já citada pole position, obteve a volta mais rápida na corrida, 1'.29.80''.
No final da corrida, ao jornal "O Volante", Casimiro disse:
“O Ferrari correspondeu plenamente. Foi mais que um automóvel, foi um verdadeiro relógio de precisão. Como viu, não tive necessidade de parar uma única vez. Podia ter andado mais devagar, não puxando tanto pelo meu carro e ganharia na mesma, mas procurei que o público não se desinteressasse da minha corrida e mantive um ritmo que julgo ser bom”.

Melhor tempo nos treinos, vitória e volta mais rápida na corrida. Não podia ter corrido melhor esta primeira e única participação de Casimiro de Oliveira com o 166MM #0040M.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)


Classificação Final


1º - Casimiro de Oliveira - Ferrari 166MM* #0040M 
       80 voltas 2h.6'.36,06'' à média de 110,100Km/h
       V.M.R. 1'.29.80'' à média de 116,100Km/h (26ª volta)

2º - Fernando Mascarenhas - Allard J2 - 77 voltas
     (classificados mais cinco concorrentes)
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